Sandálias Verdes

4 01 2008

 

Um homem com um chinelo verde, calça negra e blusa amarela espera a piroga às margens do Rio Senegal. Um saco de arroz, outro de açúcar afundaram a piroga no Rio. Caudaloso, aconchegante, fraterno ele recebe o novo passageiro.

A sandália verde de borracha escorrega no barro marrom da margem e o pé, coberto de lama, pisa na madeira irregular da piroga. A embarcação se afasta lentamente e um velho com calça de algodão azul, folgada, e uma toca amarela e azul na cabeça não para de falar na outra margem. Na margem da Mauritânia: Soninke, uma língua difícil.

O homem com sandálias verdes parte para Bakel. No olhar a indiferença daquele que  viu as águas barrentas do Rio Senegal no primeiro dia de nascido.

O motor velho da piroga aturde. As mulheres vão juntas e caladas e, aos poucos, o barro molhado seca no pé preto e na sandália verde.

Ele olha o horizonte procurando algum vilarejo (Golmy). A fisionomia muda:

– Mali!

Grita ele de repente para uma mancha marrom no Rio. É um hipopótamo. Ele passa ao largo, indiferente, imenso, emergindo para respirar e jogando ar e água para o céu. Guardião do Rio, ele olha ao longe para a Piroga e escuta longe a voz do homem de sandálias verdes gritando seu nome em Soninke. Dele e de todos os guardiões do Senegal.

– Eu sou o hipopótamo que viu o Rio aumentar e diminuir de volume. Eu sou o hipopótamo que viu vilas engolidas pelas águas marrons, que viu outras surgirem nas mesmas margens. Eu sou o hipopótamo que viu soninkes, toucouleres e bambaras resistirem aos brancos e sucumbindo alguns, mortos de boca para baixo, no fundo do Rio, alimentando serpentes.

– Eu sou o hipopótamo que permite que o  homem de sandálias verdes chegue ao seu destino sem que faça, de um golpe, a piroga virar.

Golmy. Açúcar e arroz: dois sacos atracam no barranco. A sandália verde no pé esquerdo afunda no barro da margem. O homem resvala e cai na água, com o outro pé na piroga. Risos e raiva, de uns e de outro. O outro se afirma e põe o homem de pé.

Outra vez a espera para que o barro seque no pé e na sandália verde. 

 Márcia Guena A autora em 23 de agosto de 2000

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