Exposição Escos de Dakar

4 01 2008

p7220047.jpgp7230068.jpgExposição Ecos de Dakar

MNU leva exposição Ecos de Dakar, da fotógrafa e jornalista Márcia Guena, para a Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, em novembro de 2007.

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Eâ povo quilombola

4 01 2008

Cada um combate como pode, alguns combatem como querem, outros combatem se quiserem e esse é o jogo. Sobreviver, sempre depende de saber jogar o jogo, para nós os negros e as negras. Combater toda sorte de opressão para continuarmos vivos e vivas. Combater essas coisas que nos eliminam dia após dia, desde o espírito. Seu espírito fica fraco

se alguém te p7230059.jpgdesconhece, te desqualifica, te nega a historia que seus antepassados deixaram pelo planeta afora, esta é a senha, combatemos por temos um compromisso com nossos e nossas ancestrais.Alguns combatem no parlamento, outros combatem nos tribunais, existem aqueles que combatem nas chamadas estruturas, por dentro delas, silenciosos, gentis, bem educados “pelas tais das beiradas”.Para nós o recurso último do combate são as ruas, o enfrentamento cara a cara com o inimigo, de frente, as vezes vamos desarmados, frágeis, mas vamos, não nos resta nada, apenas o combate franco, estamos fartos e fartas dessa boa educação que nos mutila.Existe uma onda que transforma tudo em mercadoria, é a abolição das idéias, é a catalogação do espírito é a cotação da coragem na bolsa de valores espúrias, que não pretende mudança alguma, é tudo miragem. Não combatemos por ibope, para ter nossas fotos em uma camisetinha de uma loja de departamentos na próxima década, é mais que isso,é arrebento e, é claro, saímos com nossas seqüelas da guerra, não temos mais saída.Fazemos parte da campanha Reaja, uma campanha que nasceu da sensibilidade política e necessidade de arrebento do MNU-BA, de um ódio acumulado pelo silêncio cínico dos covardes, muitos liberais e negrinhos integrados, que enquanto percebem levas de corpos pretos assassinados, refestelam-se na festa da igualdade racial. O Reaja caminha pela contramão do integracionismo atônito, os de boa vontade e péssima atitude frente a nossa tragédia cotidiana, esses títeres de retórica refinada nas salas arejadas por ar condicionado, café granulado e muito recurso captado. O Reaja optou pela rua, pela Ira coletiva organizada, pelo brado e expôs a ferida do sistema, e não sem fundamento o Reaja descobriu que a dor é nossa e que ninguém vai chorar nossa dor, só nós, é nós, viva nós, Êa nós.Entramos descalços na côrte, mal educados, esfarrapados e livres. Sempre soubemos que não seriamos ouvidos facilmente, chamamos a atenção dos inimigos e seus soldados prontos a nos abater, desafiamos o estado a todo tempo, como Desdemona, como Zumbi.Como Dexter Omena, O mano encarcerado do 509-E, que desafiou os senhores feudais do sistema carcerário, ele que é nosso parceiro e que terá nossa participação na luta por sua liberdade. Somos desse jeito.Queremos caminhar livremente sem ser achacado pela policia a cada festa de rua (Cassetete, choque elétrico e empurrão)Queremos que os irmãos e as irmãs do sistema carcerário, sejam tratados com respeito e dignidade, independente do crime que cometeram e que tenham um tratamento jurídico justo.Queremos que os jovens negros tenham acesso a educação de qualidade, a brincadeira, ao esporte, a diversão.Queremos uma política cultural descentralizada em nossas cidade que permita a fruição cultural, a formação e a circulação cultural em nossas comunidades.Queremos o fim do extermino;O fim da brutalidade policial;Atendimento digno na saúde;Emprego;Respeito aos idosos;O fim da homofobia;O fim da drenagem de recursos de nossas comunidades;Queremos a reforma agrária;O fim da violência no campo;A imediata punição dos grupos de extermínio e seus mandantes engravatados, olhos azuis e cachinhos louros;Queremos a CPI Nordeste para investigar os crimes de extermínio;A liberdade de Dexter…A liberdade de Murilo…A liberdade de Doda.Queremos ser ouvidos e ouvidas, como sujeitos políticos dentro dessa sociedade corrompida , racista, sexista e homofóbica.Queremos uma nova sociedade nova.Simples, desse jeito, nós combatemos.  

Hamilton Borges Walê – MNU/BA.

Salvador, 29 de Novembro de 2005





Sandálias Verdes

4 01 2008

 

Um homem com um chinelo verde, calça negra e blusa amarela espera a piroga às margens do Rio Senegal. Um saco de arroz, outro de açúcar afundaram a piroga no Rio. Caudaloso, aconchegante, fraterno ele recebe o novo passageiro.

A sandália verde de borracha escorrega no barro marrom da margem e o pé, coberto de lama, pisa na madeira irregular da piroga. A embarcação se afasta lentamente e um velho com calça de algodão azul, folgada, e uma toca amarela e azul na cabeça não para de falar na outra margem. Na margem da Mauritânia: Soninke, uma língua difícil.

O homem com sandálias verdes parte para Bakel. No olhar a indiferença daquele que  viu as águas barrentas do Rio Senegal no primeiro dia de nascido.

O motor velho da piroga aturde. As mulheres vão juntas e caladas e, aos poucos, o barro molhado seca no pé preto e na sandália verde.

Ele olha o horizonte procurando algum vilarejo (Golmy). A fisionomia muda:

– Mali!

Grita ele de repente para uma mancha marrom no Rio. É um hipopótamo. Ele passa ao largo, indiferente, imenso, emergindo para respirar e jogando ar e água para o céu. Guardião do Rio, ele olha ao longe para a Piroga e escuta longe a voz do homem de sandálias verdes gritando seu nome em Soninke. Dele e de todos os guardiões do Senegal.

– Eu sou o hipopótamo que viu o Rio aumentar e diminuir de volume. Eu sou o hipopótamo que viu vilas engolidas pelas águas marrons, que viu outras surgirem nas mesmas margens. Eu sou o hipopótamo que viu soninkes, toucouleres e bambaras resistirem aos brancos e sucumbindo alguns, mortos de boca para baixo, no fundo do Rio, alimentando serpentes.

– Eu sou o hipopótamo que permite que o  homem de sandálias verdes chegue ao seu destino sem que faça, de um golpe, a piroga virar.

Golmy. Açúcar e arroz: dois sacos atracam no barranco. A sandália verde no pé esquerdo afunda no barro da margem. O homem resvala e cai na água, com o outro pé na piroga. Risos e raiva, de uns e de outro. O outro se afirma e põe o homem de pé.

Outra vez a espera para que o barro seque no pé e na sandália verde. 

 Márcia Guena A autora em 23 de agosto de 2000





Olá mundo!

4 01 2008

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